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A Psicologia e a Internet

Com o surgir dos computadores e, especialmente, da internet, uma nova dimensão de experiências humanas está rapidamente surgindo. Termos como “mundo virtual”, “ciberespaço”, entre outros, tem sido mencionados cada vez mais.

Essas novas experiências criadas podem ser entendidas como “espaços” psicológicos. Quando alguém liga um computador, inicia um programa, escreve um email, ou acessa algum de seus serviços online, os usuários têm a sensação de estarem entrando, consciente ou inconscientemente, num “lugar” ou “espaço” que é composto por uma série de significados e sentidos. Observa-se isso nas descrições que os usuários fazem ao acessar uma página na internet, como estarem “navegando” ou “indo a algum lugar”. Ou seja, metáforas como “mundo”, “domínios”, “salas”, “estar em”, “dentro de” são comumente associadas à atividades da internet.

 

Foto: Maria da Silva - Percepção e Realidade

Foto: Maria da Silva - Percepção e Realidade

Em um nível psicológico mais profundo, alguns usuários descrevem como seus computadores são extensões de sua mente e personalidade. Como um “espaço” que reflete seus gostos, atitudes e interesses. Trazendo alguns termos psicanalíticos, computadores e a internet se tornam uma espécie de “espaço transicional”.

Espaço transicional é o espaço criado pela atualização do espaço potencial, aquele que Winnicott diz existir entre o bebê e a mãe na época da dependência absoluta. Nessa época, marcada pela fusão, não existe qualquer espaço psicológico separando o bebê da sua mãe. No espaço potencial irão sendo colocados “objetos” (experiências do bebê), e mais tarde objetos concretos, que o bebê virá a possuir, e é assim que no espaço potencial cria-se o espaço transicional.

A partir de Kant, e com a colaboração final de Lacan, sabemos que não existe uma REALIDADE da qual se possa ter certeza, pois o REAL (a coisa em si) está fora do campo da percepção. De acordo com Lacan, existe, então, duas maneiras de compreender o “real”: o simbólico, esse território onde tudo é possível mas nada é certo, e o imaginário, onde muita coisa é certa mas quase nada é possível.

 

“O que percebemos objetivamente não se chama “realidade”, mas “realidade compartilhada”, ou seja, aquilo sobre o qual duas ou mais pessoas concordam que “é verdade”.”
- Winnicott

 

Na linguagem de Winnicott, esses dois territórios equivalem às coisas que percebemos objetivamente, em contraste com as coisas que concebemos subjetivamente. Pois para Winnicott o que percebemos objetivamente não se chama “realidade”, mas “realidade compartilhada”, ou seja, aquilo sobre o qual duas ou mais pessoas concordam que “é verdade”, e quanto mais pessoas concordarem a respeito, mais “verdadeira” é a coisa percebida. Exemplo: muitas coisas são verdadeiras para um povo, enquanto outro as acha inteiramente disparatadas. E nos partidos políticos, assim como nos torcedores de clubes esportivos, vemos “realidades compartilhadas” que só são compartilhadas por eles mesmos, sendo inteiramente desacreditadas pelos demais.

A “realidade compartilhada” tem, em sua periferia, uma ampla região onde a qualidade de “verdadeiro” é muitíssimo escassa, vigorando ali mais o que duas ou mais pessoas estão de acordo sobre determinado fenômeno, do que a possibilidade de ele ser captado por instrumentos físicos de registro, tais como uma máquina fotográfica. A inexistência de uma fronteira nítida entre a “realidade” e a “ilusão”, portanto, é um dos elementos centrais para a compreensão do problema da percepção humana.

Cognição e Virtualidade

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Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet

“A maioria das considerações sobre o computador concentram-se num computador instrumental, no trabalho que o computador pode fazer. Mas meu foco aqui está algo diferente, está no computador subjetivo. É a máquina tal como ela entra no desenvolvimento da vida social e psicológica e como ela afeta a maneira como pensamos, especialmente a maneira como pensamos sobre nós mesmos. (…) Que tipo de pessoas nós estamos nos tornando?”

- Sherry Turkle – professora de Sociologia da Ciência na Massachusetts Institute of Technology (MIT) e autora de Life on the Screen: Identity in the Age of the Internet (A Vida na Tela: A Identidade na Era da Internet). Ela se especializou no estudo do relacionamento das pessoas com a tecnologia, e, em especial, com os computadores. Sua mais recente pesquisa concentra-se na psicologia e sociologia da comunicação mediada por computador.